terça-feira, 11 de outubro de 2011

As árvores de Angkor


 - Avô, lês-me aquela estória das árvores, mais uma vez?
- Ooohhh meu pequeno guerreiro, essa estória é a tua preferida, sim?
- Simmmmmmmmmmm! Contas-me outra vez, sim avô?
- Só se me prometeres que terás bons sonhos.
- Prometo avô! Sem pesadelos!

Ora aqui vai...
...Era uma vez um guerreiro que se chamava Jaya. Há muitos, muitos anos atrás, 800 anos depois de Cristo nascer, o guerreiro Jaya chegou a uma terra desconhecida que não era de ninguém e declarou-se Rei dessa terra. Para que todo o seu comando pudesse viver nessa terra, começou por construir uma cidade chamada Angkor. Juntamente com os seus homens construiu casas de pedra para que pudessem viver com as suas famílias, criou sistemas de irrigação para que a população tivesse água para se lavar, beber e regar as plantações de arroz, e ergueu templos e santuários em homenagem a deuses hindus...

- O que são deuses hindus, avô?
- Bem, deuses são seres que têm poderes maiores do que os homens, por isso os homens respeitam-nos e constroem templos em sua homenagem, para que protejam as suas vidas. Cada pessoa tem os seus deuses preferidos. Quando o rei Jaya criou este império, os deuses que as pessoas acreditavam eram os da religião hindu, originária da Índia, um país muito grande situado na Ásia. Nesta altura os deuses mais comuns eram Vishnu - o deus da preservação - e Shiva - o deus da destruição. Por isso, todos os templos que mandou construir tinham elementos decorativos sobre Vishnu e sobre Shiva. Eram construídos em montes e estavam rodeados por um fosso de água. A água simbolizava o oceano cósmico e o templo, o monte Meru, a casa dos deuses hindus.
- Gosto do nome Shiva, avô. Quando tiver uma tartaruga, vou chamar-lhe Shiva!
- É um nome muito bonito, é sim sr. Shiva era o deus mais respeitado da maioria dos seguidores da religião hindu.




 ... Com isto, o Rei Jaya criou uma cidade. Como as pessoas tinham boas condições para viver nessa cidade e o rei era um bom rei, a cidade começou a crescer e deu origem a um império: o império Khmer. Este império começou a crescer de tal maneira, que se tornou um dos maiores e mais longos do Sudeste Asiático durante 6 séculos!

- Tantos anos avô! O rei viveu todos esses anos?
- Ohohohoh, viveu muitos anos sim sr., mas entretanto os deuses levaram-no e outros reis tomaram o poder nos anos seguintes, até o ano de 1431.   
- O que fizeram os outros reis, avô?

... Bom, no ano 1113, o Rei Surya mandou construir um dos templos mais famosos do Mundo e que hoje é o símbolo do Cambodja - Angkor Wat. Ao contrário da maioria dos reis anteriores, este rei dedicou este templo apenas a Vishnu, o seu deus hindu preferido, o deus da Preservação. No entanto, mais tarde, em 1181, o Rei Jaya VII era budista e não hindu, por isso durante o seu reinado mandou construir templos com base no Budismo Mahayana e mandou colocar imagens do Buda nos templos hindus que já estavam construídos, como em Angkor Wat, por exemplo.


- O que aconteceu depois avô?

Depois, em 1431, um império vizinho, chamado Sião - que agora se chama Tailândia - começou a ficar com os olhos cheios de ganância e inveja porque via o império Khmer a crescer cada vez mais, com inúmeros templos grandiosos e uma riqueza maior que o seu. Assim,decidiu invadir e destruir este império que tanto o incomodava. Destruiu templos, santuários, casas, a população fugiu e o império ficou vazio, sem ninguém, só com as árvores em redor. As árvores ficaram sem folhas de tanta violência testemunhada e convocaram uma reunião de urgência para defender o futuro de Angkor. Agora que a cidade estava sem homens, seriam elas a tomar conta de Angkor.


  

- Que árvores eram, avô?
- As que mandavam em Angkor eram da espécie Banyan. Uma espécie com raízes enormes, do tamanho de patas de dinossauro, com troncos longos e esguios, do tamanho de arranha-céus. Como eram as mais altas, poderiam ver até kms de distância e alertar se vislumbrassem algum ataque surpresa.

  
 
 - E o que decidiram as árvores?

As árvores falaram entre elas e decidiram que não iriam permitir que a mão do Homem destruísse tamanha beleza que um dia tinha construído. Para isso iriam estar atentas, dividiram-se em turnos de vigia e grupos delas ficavam em alerta durante anos seguidos, dia e noite. Um dia, depois de muitos anos, as árvores deram alerta porque tinham vislumbrado um grupo de homens que vinham em direcção a Angkor. Quando os homens se aproximaram as árvores começaram a expandir as suas raízes do tamanho de patas de dinossauro e abraçaram as pedras dos templos para que os homens não lhes tocassem. Os homens assustaram-se com a imensidão das árvores, afinal, eram do tamanho de formigas para as árvores. Cheios de medo, correram depressa como chitas, deixando para sempre os templos de Angkor!

Rolous group - Preah Ko (séc. IX)
Rolous group - Preah Ko (séc. IX)
Rolous group - Preah Ko (séc. IX)


Ta Phrom (séc. XII)

Angkor Wat - (séc. XII)

Angkor Wat - (séc. XII)



Angkor Thom




Bayon - (séc. XII)














sábado, 8 de outubro de 2011

Check-in no Cambodja

Mercado em Siam Reap.
Saímos do Laos com saudades e entrámos no Cambodja amuados. Foi uma decisão nossa sair do Laos, mas havia uma ligação quase patriótica que nos mantinha ligados. Ficámos como crianças irritantemente embirrentas, quando lhes tiram algo que gostam muito e lhes metem outro algo à frente à espera que se contentem com a substituição. Para nós não era Same Same, o Cambodja era bem different. Por isso olhámos para o Cambodja de lado, desconfiámos da sua hospitalidade forçada. Resistimos à sua beleza e enaltecemos todos os seus defeitos. Não fomos justos com o Cambodja e já só no final, antes de sair para o Vietname, é que nos deixámos render. Aí convenceu-nos de que também pode ter o seu je ne sai quoi de diferente e especial.

O inglês asiático.
Mercado em Siam Reap.
Mercado em Siam Reap.
Logo para começar correu mal. Vimo-nos mergulhados num dos scams (esquemas) tão populares no Cambodja. O esquema foi o seguinte: ainda no Laos comprámos bilhete de autocarro para nos levar a Siam Reap, Cambodja. Quando esperamos pelo mesmo, uns senhores cambodjanos entregam-nos uns papéis de pedido de visto para preenchermos. Depois pedem-nos os passaportes. Na fronteira, nem precisamos de sair do autocarro, um senhor da alfândega entra e com um sensor, encosta ao nosso pescoço para detectar se temos febre (?). De resto é só esperar. Para isto pagámos mais 5$. Ou seja, tratam das nossas coisas mas pagamos. Uma espanhola que conhecemos recusou-se a pagar. Resultado, teve de ir sozinha para a alfândega e quando tinha dúvidas, ninguém a ajudou. Mas safou-se e não gastou mais 5$. Aqui, se não entras nos esquemas, não facilitam. Mais tarde trocamos de autocarro (bem diferente do que venderam, mas está bem). No caminho, um cambodjano começa, muito subtilmente, a aconselhar-nos uma guest house, com folhetos, "very good, very cheap, with swiming-pool and TV, only 7$". Chegamos a Siam Reap quase à meia-noite e o mesmo cambodjano trata logo de nos arranjar um tuk-tuk, o único disponível, naquela noite. Lá vamos mas dizemos que queremos ir para o centro, ele diz-nos que nos leva à guest house e se não gostarmos leva-nos para outro sítio. "Ok, vamos lá ver isso..." Pelo caminho saímos de uma avenida principal e mete-se numa rua mais estreita e praticamente sem luz. Começamos a desconfiar. "Para onde é que este nos está a levar...ai ai ai" Bem, suspiramos de alívio quando vemos um hotel iluminado. Chegamos à recepção e claro que o preço já não eram os 7$ mas antes 8$, mínimo. A escuridão lá fora e o tardio das horas fez-nos ceder. Ok, ficamos hoje, amanhã logo se vê. Passados 5 mins, chega outro tuk-tuk com 3 estrangeiros que tinham vindo connosco no autocarro. No dia seguinte, pessoal que tínhamos conhecido nas 4000 ilhas no Laos, também estavam no mesmo Hotel!! Portanto, um grande cartel de máfia de tuk-tuks e hotel, onde toda a gente vai parar ao mesmo sítio!! Para sermos sinceros, a piscina até soube bem e o reencontro com as pessoas que já tinhamos conhecido também, mas ao 2º dia já não podíamos compactuar com a máfia tão transparente que geria o Hotel e decidimos ir para outro onde estava o nosso companheiro Chintan. Este hotel bem melhor, birmanês, com empregados tão amáveis que nos faziam sentir em casa, contrastava drasticamente com o anterior, com empregados trombudos aos quais pedir uma bebida significava provocar uma reacção fastidiosa de como quem diz "you're not wellcome"! Ficámos felizes por deixar a máfia.
Mandalay Guest House, teriam de ser da Birmânia para serem simpáticos.
Siam Reap, Cambodja.
No caminho de autocarro, reparamos na paisagem, o Cambodja parece uma panqueca, de tão plano que é. À noite, observamos lâmpadas de luz negra espalhadas pelas bermas da estrada e pelos campos. Fica tudo iluminado. Perguntamos o que são e qual a sua finalidade. O cambodjano responde-nos que servem para apanhar insectos, que quando são atraídos pela luz, batem no plástico que está adjacente à lâmpada e caem num reservatório de água que está por baixo, ficando presos e servindo como iguaria nacional. Confirmamos as iguarias num restaurante onde parámos para jantar. A quantidade de baratas e afins voadores faziam com que fôssemos tabela de pin-ball! Como jantar, para além de arroz e outros pratos com vegetais e carne, também haviam baratas, grilos e afins fritinhos para perder o apetite. Blanhc! Perdemos logo a vontade de jantar.


Blhaaaaarccc!
Perguntámos o que era mas não conseguimos pronunciar!!
Uma abóbora sorridente.
Muitas Bananinhas.
Mercado.
Mercado em Siam Reap I.
Menino cambodjano enquanto comia um fried rice.
Depois do fried rice que lhe oferecemos em vez de comprarmos recuerdos.
O Cambodja é um país de contrastes, de antónimos, em que o fosso entre ricos e pobres aumenta de dia para dia. Percebemos isso também quando lemos no guia que a corrupção é um dos maiores problemas do país. Andamos pelo centro de Siam Reap à noite e vemos luzes, néons, restaurantes, grandes hotéis, grandes lojas, grandes carros. Andamos 5 mins a pé para fora do centro e entramos na escuridão total, parece que entrámos num país diferente. Mais tarde em Phnom Penh, o Eric, um couchsurfer americano que nos acolheu em sua casa, diz-nos que o Cambodja é um dos países com a electricidade mais cara do Mundo. Por isso as cidades são muito pouco iluminadas.
Fish massage.
Peixes Queratolíticos.
No Cambodja nota-se mais dinheiro, facilmente visível nos SUV's que até brilham de tão novos que são, nas casas mais elaboradas e adornadas, mas também reparamos no oposto, na falta dele, nas crianças e adultos que pedem na rua a toda a hora e no lixo que se amontoa em qualquer esquina. Aqui há lixo por todo o lado, não há caixotes do lixo, ver um cambodjano a deitar um saco de plástico para o meio da rua é a atitude mais comum e natural que se vê. A passagem do kipp (moeda do Laos) para o dólar faz disparar os preços, obviamente. Tudo tem como base o dólar e, mesmo havendo a moeda própria no Cambodja, o riel, o dólar tem muito mais valor, os riels são peanuts, para o turista só vai em dólar! Portanto para os khmer (cambodjanos), aquele que não tem olhos em bico, não é moreno nem se veste de pijama, fica considerado uma caixa de multibanco. Com a diferença de que o dinheiro da caixa multibanco nunca é deles, mas será sempre para eles. A observação generalizada do pijama foi outro ponto de interrogação: camisa e calças de algodão, aos ursinhos, aos cachorrinhos, com luazinhas, umas nuvenzinhas, amarelinhos, vermelhões, azulinhos bebé, padrões oníricos espalhados pelas ruas, principalmente no género feminino e crianças. Beliscamo-nos porque pensamos que estamos a sonhar. Mas não, aqui adoptam o sistema prático e confortável do pijama como indumentária corriqueira. Será que é para não terem trabalho quando se levantam da cama?, questionamo-nos. Mas a verdade é que os orientais do Sudeste Asiático raramente exibem odores desagradáveis, mesmo nos autocarros nunca nos apetece tapar o nariz, eles preservam bem a sua higiene e como está sempre bastante calor, tomam banho várias vezes por dia. Será que é porque tem padrões tão "fofinhos e kitch" que faz o género feminino perder-se de amores? Ficámos sem perceber os pijamas, mas derretemo-nos com essa diferença cultural.

Os pijamas famosos.
Os dias seguintes percorremos os templos de Angkor de bicicleta e fugimos aos tuk-tuks que cobram bom preço para nos levar o dia inteiro como chauffers. O Cambodja estava a ser difícil, mas os templos de Angkor trouxeram uma lufada de riqueza histórica.

Não há piranhas, podem mergulhar os pézinhos.
O Ronaldo, sempre presente.
Patas esticadas.
Coco loco
Mango shake.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Interregno

Após quase um mês de viagem pela imensa China, rodeados por câmaras de vigilância ostensivamente colocadas desde o autocarro mais caquético até às ruas de Shanghai (que nos fazia sentir num big brother a uma escala maior), e após milhões de tentativas frustradas para aceder a uma internet censurada, finalmente conseguimos voltar a publicar os imensos posts que temos em atraso!